Livro 1864

O Evangelho Segundo o Espiritismo

Allan Kardec — 1864

O Evangelho Segundo o Espiritismo

Terceiro livro da Codificação Espírita, publicado por Allan Kardec em abril de 1864. Contém a explicação das máximas morais do Cristo, sua concordância com o Espiritismo e sua aplicação às diversas situações da vida. A edição definitiva é a terceira (1866), revista, corrigida e modificada pelo autor.

Enquanto O Livro dos Espíritos apresenta a filosofia e O Livro dos Médiuns a parte experimental, o Evangelho Segundo o Espiritismo constitui o pilar moral da doutrina. O lema inscrito na capa — "Fé inabalável é somente a que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade" — define o espírito da obra: uma moral racional, fundamentada e universal.

Cada capítulo parte de uma passagem do Evangelho de Jesus, seguida da interpretação espírita de Kardec e de Instruções dos Espíritos — mensagens mediúnicas que complementam e aprofundam o tema.

Estrutura

Fundamentos doutrinários (Caps. I–IV)

  • Cap. I — Não vim destruir a Lei: As três revelações (Moisés, Cristo, Espiritismo). Aliança da ciência e da religião.
  • Cap. II — Meu Reino não é deste mundo: A vida futura como verdadeira vida. O ponto de vista espírita sobre a existência terrestre.
  • Cap. III — Há muitas moradas na casa de meu Pai: Pluralidade dos mundos habitados. Mundos de expiação, provas, regeneração. Progressão dos mundos.
  • Cap. IV — Ninguém poderá ver o Reino de Deus se não nascer de novo: A Reencarnação fundamentada nas Escrituras. Diálogo com Nicodemos. Elias/João Batista.

As Bem-aventuranças reinterpretadas (Caps. V–X)

  • Cap. V — Bem-aventurados os aflitos: Justiça das aflições. Causas atuais e anteriores dos sofrimentos. Suicídio e loucura. Provas voluntárias.
  • Cap. VI — O Cristo Consolador: O Espiritismo como Consolador prometido por Jesus.
  • Cap. VII — Bem-aventurados os pobres de espírito: Humildade vs. orgulho. Missão do homem inteligente.
  • Cap. VIII — Bem-aventurados os que têm puro o coração: Pureza de intenção. Escândalos morais.
  • Cap. IX — Bem-aventurados os mansos e pacíficos: Mansidão, paciência, resignação.
  • Cap. X — Bem-aventurados os misericordiosos: Perdão das ofensas. Indulgência. Não julgar.

A moral do Cristo (Caps. XI–XVII)

  • Cap. XI — Amar o próximo como a si mesmo: A Lei de Amor como mandamento maior. O egoísmo como oposto. Caridade para com todos, inclusive criminosos.
  • Cap. XII — Amai os vossos inimigos: Retribuir o mal com o bem. A vingança, o ódio, o duelo.
  • Cap. XIII — Não saiba a vossa mão esquerda o que dá a vossa mão direita: Caridade material e moral. Beneficência sem ostentação. Piedade. O óbolo da viúva.
  • Cap. XIV — Honrai a vosso pai e a vossa mãe: Piedade filial. Parentela corpórea e espiritual. Laços de família à luz da Reencarnação.
  • Cap. XV — Fora da caridade não há salvação: A máxima central da moral espírita. Parábola do Bom Samaritano. Não "fora da Igreja", mas fora da Caridade.
  • Cap. XVI — Não se pode servir a Deus e a Mamon: Desapego dos bens terrenos. Provas da riqueza e da miséria. Utilidade providencial da riqueza.
  • Cap. XVII — Sede perfeitos: O Homem de Bem como modelo de conduta. Os bons espíritas. Parábola do Semeador.

Fé, missão e conduta (Caps. XVIII–XXVI)

  • Cap. XVIII — Muitos os chamados, poucos os escolhidos: Parábola do Festim das Bodas. A porta estreita. Muito se pedirá a quem muito recebeu.
  • Cap. XIX — A fé transporta montanhas: Poder da . Fé religiosa e fé raciocinada. Condição da fé inabalável.
  • Cap. XX — Os trabalhadores da última hora: Missão dos espíritas.
  • Cap. XXI — Haverá falsos cristos e falsos profetas: Discernimento espiritual. Não creiais em todos os Espíritos.
  • Cap. XXII — Não separeis o que Deus uniu: Indissolubilidade do casamento à luz espírita.
  • Cap. XXIII — Estranha moral: Interpretação de passagens aparentemente contraditórias do Evangelho.
  • Cap. XXIV — Não ponhais a candeia debaixo do alqueire: Coragem da . Carregar a sua cruz.
  • Cap. XXV — Buscai e achareis: Ajuda-te, que o Céu te ajudará.
  • Cap. XXVI — Dai de graça o que de graça recebestes: Mediunidade gratuita.

Prece (Caps. XXVII–XXVIII)

  • Cap. XXVII — Pedi e obtereis: Qualidades e eficácia da Prece. Transmissão do pensamento. Prece pelos mortos.
  • Cap. XXVIII — Coletânea de preces espíritas: 84 preces organizadas em cinco seções (gerais, para si mesmo, pelos outros, pelos mortos, pelos doentes e obsidiados).

Ensinos fundamentais

  • As três revelações marcam a progressão da humanidade: Moisés trouxe a lei, Cristo trouxe a moral, o Espiritismo traz o cumprimento — a compreensão plena por meio da razão e da ciência (Cap. I).
  • A Lei de Amor é o mandamento maior: "Amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo — aí estão toda a lei e os profetas" (Cap. XI).
  • "Fora da Caridade não há salvação" significa que a prática do bem — não a adesão a uma igreja ou dogma — é o critério de progresso espiritual (Cap. XV).
  • As bem-aventuranças são reinterpretadas à luz da Reencarnação e da Lei de Causa e Efeito: os aflitos são bem-aventurados porque suas provações são oportunidades de progresso (Cap. V).
  • A espírita é raciocinada: não pede crença cega, mas compreensão que resiste ao exame da razão (Cap. XIX).
  • O Perdão é dever moral: perdoar os inimigos não é fraqueza, mas grandeza de alma que liberta tanto quem perdoa quanto quem é perdoado (Caps. X e XII).

Estrutura diferencial: Instruções dos Espíritos

O que torna esta obra única na codificação é a presença, em cada capítulo, de Instruções dos Espíritos — comunicações mediúnicas assinadas por Espíritos elevados (Santo Agostinho, São Paulo, São Luís, Lacordaire, Fénelon, entre outros) que complementam a interpretação de Kardec. Estas comunicações foram obtidas em diversas cidades e por diferentes médiuns, demonstrando a universalidade do ensinamento — princípio que Kardec chama de "controle universal do ensinamento dos Espíritos" (Introdução, item II).

As instruções mais marcantes incluem:
- "A caridade verdadeira" (Cap. XI) — Comunicação de São Paulo sobre os três tipos de caridade: benevolência, beneficência e indulgência
- "Fora da caridade não há salvação" (Cap. XV) — O Espírito Paulo distingue entre fé cega e fé viva: "fé inabalável é somente a que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade"
- "O dever" (Cap. XVII) — Comunicação do Espírito Lázaro: "O dever é a obrigação moral da criatura para consigo mesma, primeiro, e, em seguida, para com os outros"
- "Prece pela Terra" (Cap. XXVIII) — Coleção de 84 preces para situações diversas, modelo prático de espiritualidade

Contexto histórico

A primeira edição (abril de 1864) trazia o subtítulo "segundo o Espiritismo". A terceira edição (1866), considerada definitiva, foi revista e ampliada por Kardec. A tradução utilizada é de Evandro Noleto Bezerra (FEB, 2ª edição, 2018). O livro rapidamente se tornou a obra mais lida do Espiritismo no Brasil, onde é estudado semanalmente em centros espíritas (a "Evangelização" ou "Estudo do Evangelho"). A epígrafe da capa — "Fé inabalável é somente a que pode encarar a razão face a face" — sintetiza a proposta de uma moral racional.

Obras relacionadas

  • O Livro dos Espíritos — Os fundamentos filosóficos que sustentam a interpretação moral
  • O Livro dos Médiuns — A parte prática que permitiu as "Instruções dos Espíritos" contidas nesta obra
  • A Gênese — Complemento científico: milagres e predições explicados pelas leis naturais
  • O Céu e o Inferno — Aprofunda as consequências morais na vida futura

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