Homem de Bem
Definição
O "homem de bem" é o modelo de conduta moral descrito por Kardec, sintetizando as qualidades daquele que pratica a lei de justiça, amor e caridade em todos os atos da vida. Não é um ideal inatingível, mas um padrão prático de comportamento diário.
Na codificação
Segundo O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XVII, itens 3-4, o homem de bem:
- Cumpre a lei de justiça, amor e caridade na sua maior pureza
- Interroga a consciência sobre seus atos: "Fez aos outros o que gostaria que lhe fizessem?"
- É bom, humano e benevolente para com todos, sem distinção
- Respeita todos os direitos legítimos consagrados pela lei natural
- Perdoa as ofensas e não guarda rancor
- É indulgente para com as fraquezas alheias, porque sabe que também precisa de indulgência
- Não procura engrandecer-se diminuindo os outros
- Aceita sem murmurar as provas da vida, por compreender que são meios de progresso
Os bons espíritas (item 4) são aqueles que, além de crerem nos princípios da doutrina, procuram aplicá-los na reforma de si mesmos. O verdadeiro espírita se reconhece pela transformação moral, não pela erudição doutrinária.
Segundo O Livro dos Espíritos, Q. 918-919, o conhecimento de si mesmo é o caminho para tornar-se homem de bem: examinar a própria consciência diariamente, identificar faltas e trabalhar para corrigi-las.
O homem de bem como perseverante e discreto — Desperte e Seja Feliz
Desperte e Seja Feliz (Cap. 13, "Edificações Duradouras") enriquece o retrato kardeciano do homem de bem com uma dimensão temporal que o Evangelho Segundo o Espiritismo apenas sugere. Joanna de Ângelis destaca que o verdadeiro homem de bem não é apenas o que age bem, mas o que persevera: criar atividades novas abandonando as antigas é "passatempo a soldo do desequilíbrio". O homem de bem é discreto, silencia suas ações benéficas, não abandona o campo onde semeia. Jesus cita, em Lucas 14:30, o homem que começou a edificar e não pôde terminar — como exemplo do que não se deve ser.
A perseverança silenciosa é distinguida do entusiasmo dos começos: "A perseverança nas obras do Bem é mais difícil do que o entusiasmo dos começos." O homem de bem não é o que age com fervor esporádico, mas o que mantém o ritmo constante do serviço anônimo.
O eixo ego-Self harmonizado como homem de bem — Em Busca da Verdade
Em Busca da Verdade (Cap. 5) apresenta uma leitura junguiana do perfil kardeciano. Joanna de Ângelis cita explicitamente a descrição do homem de bem de O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XVII, item 3: "O homem de bem é bom, humano e benevolente para com todos, sem distinção de raças nem de crenças..." — e identifica esse perfil como o que Jung chamaria de "eixo ego-Self harmonizado": atuação ética consistente, compaixão, desprendimento material, ausência de projeção da sombra sobre o outro.
A identificação é doutrinalmente significativa: o ideal moral espírita de Kardec e o ideal psicológico de Jung apontam para o mesmo ser humano pleno. A diferença está no vocabulário, não na substância: Kardec descreve o que o homem de bem faz; Jung descreve o que ele é internamente.
O homem de bem na prática histórica — Bezerra de Menezes
O retrato biográfico de Bezerra de Menezes — O Apóstolo da Caridade oferece o exemplo mais documentado de um homem de bem em ação na história do Espiritismo brasileiro. Bezerra tratava gratuitamente os pobres, distribuía dinheiro às famílias necessitadas, dava consultas médicas às três da madrugada, e recusava honorários dos ricos para dedicar seu tempo aos indigentes. Sua vida encarna cada um dos traços enumerados por Kardec: bondade universal, perdão das ofensas, indulgência para com as fraquezas alheias, aceitação das provas sem murmurar.
A biografia ilustra também a Q. 919 de O Livro dos Espíritos sobre o conhecimento de si mesmo: Bezerra examinava sua consciência continuamente e ajustava sua conduta conforme o ideal que buscava — um processo vivido, não apenas proclamado.
Conceitos relacionados
- Caridade — A virtude central do homem de bem
- Leis Morais — O homem de bem pratica todas as leis em sua maior pureza
- Lei de Amor — O mandamento que orienta toda a conduta
- Fé — A fé raciocinada que sustenta a prática moral