Reuniões Espíritas
Definição
As reuniões espíritas são encontros de encarnados com o propósito de estabelecer comunicação com Espíritos desencarnados, instruir-se na Doutrina Espírita, ou prestar auxílio espiritual a Espíritos sofredores e obsessores. Na concepção de Kardec, a reunião espírita bem organizada é a estrutura fundamental da prática do Espiritismo.
Na codificação
Segundo O Livro dos Médiuns (§317-324):
Tipos de reuniões (§317-320)
Kardec distingue três tipos principais:
1. Reuniões experimentais
Destinadas a observar e verificar fenômenos mediúnicos — manifestações físicas, visões, audições, escrita direta. São úteis para pesquisa e para convencer céticos pela demonstração objetiva dos fenômenos. Mas Kardec as considera o nível menos elevado de prática espírita: quem se limita aos fenômenos físicos obtém entretenimento e curiosidade, não instrução.
2. Reuniões instrutivas
Destinadas ao estudo e à instrução doutrinária. Os Espíritos são evocados para responder perguntas, instruir sobre temas filosóficos e morais, e ajudar os presentes a compreender a Doutrina. São Luís destaca que o objetivo não é o fenômeno em si, mas o ensinamento que os Espíritos podem transmitir. Kardec considera estas as reuniões de valor mais elevado.
3. Reuniões íntimas
Realizadas entre familiares ou amigos próximos, com o objetivo de comunicar com Espíritos queridos ou de receber orientação pessoal. Têm valor afetivo e consolador legítimo, mas Kardec adverte: a intimidade do grupo pode tornar o critério de verificação mais leniente, facilitando a aceitação de comunicações que deveriam ser questionadas.
Composição das reuniões (§317)
Kardec é prático sobre a composição ideal de um grupo espírita:
- Não há número mínimo ou máximo fixo: dois ou três participantes já podem formar uma reunião válida; centenas também
- O que importa é a qualidade dos participantes, não a quantidade: um único médium sincero vale mais que dezenas de médiuns duvidosos
- A diversidade de médiuns é benéfica: o que um não consegue transmitir, outro pode
- Médiuns de diferentes faculdades se complementam: um psicógrafo, um sensitivo, um vidente, um tiptólogo — cada qual contribui com o que o Espírito comunicante pode usar
A presidência das reuniões
Kardec recomenda que toda reunião espírita tenha um presidente ou condutor responsável por:
- Abrir e fechar com prece (ou designar alguém)
- Decidir quando e a quem evocar
- Avaliar criticamente as comunicações recebidas — nunca aceitá-las acriticamente
- Manter a ordem e o propósito da reunião
- Afastar, com firmeza e caridade, comunicações perturbadoras
O presidente não precisa ser médium. Na verdade, Kardec sugere que seja de preferência alguém que não seja médium, para manter o julgamento crítico livre de interferência perispiritual.
A qualidade moral dos participantes (§321-323)
São Luís insiste num princípio que percorre todo o Cap. XXXI: a qualidade dos Espíritos que comparecem à reunião é determinada pela qualidade moral dos participantes encarnados.
"Quereis bons Espíritos? Sede bons. Quereis Espíritos elevados? Elevai-vos. Quereis Espíritos sábios? Buscai a sabedoria."
Não é um princípio arbitrário — é uma lei de afinidade fluídica: as correntes de pensamento e os campos vibratórios criados pelos presentes atraem Espíritos que vibram em sintonia com essas correntes. Uma reunião de pessoas que chegam com curiosidade frívola e conversas mundanas até o último momento cria um campo que atrai Espíritos frívolos. Uma reunião de pessoas que se preparam com oração e intenção séria cria um campo que atrai Espíritos sérios.
Os principais erros nas reuniões
São Luís e Santo Agostinho, nos conselhos do Cap. XXXI, identificam os erros mais comuns que comprometem as reuniões:
- Evocar por curiosidade ou entretenimento: os Espíritos evocados sem propósito sério respondem com diversão ou perturbação
- Aceitar acriticamente tudo que chega: mesmo Espíritos bons podem errar; a verificação doutrinária é necessária
- Dar atenção excessiva a fenômenos físicos espetaculares: o Espiritismo não é circo; os fenômenos físicos são meios, não fins
- Discutir, brigar ou trazer energias agitadas para as reuniões: destroem a harmonia fluídica necessária
- Evocar Espíritos específicos por capricho: nem todo Espírito deve ser evocado em qualquer momento; o discernimento é necessário
- Ignorar os conselhos dos Espíritos bons por preferir os que agradam: os Espíritos que mais elogiam os presentes são frequentemente os menos confiáveis
A fórmula de abertura de Santo Agostinho (§324)
Santo Agostinho transmite a Kardec uma fórmula de abertura para as reuniões (a evocação geral):
"Rogamos a Deus que permita aos bons Espíritos se comunicarem conosco e nos afastem os maus. Evocamos em geral os Espíritos que se interessem por nós para nos instruírem e protegerem. Se algum Espírito superior se dignar de se comunicar, pedimos-lhe que o faça. Afastamos formalmente os Espíritos mentirosos e perturbadores."
O Cap. XXXI fecha com uma série de comunicações de Espíritos elevados — São Luís, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, Fénelon — sobre a missão das sociedades espíritas: não são clubes de curiosos, são centros de trabalho espiritual, de instrução mútua e de auxílio aos Espíritos sofredores.
O papel das reuniões na desobsessão
Uma das funções mais importantes das reuniões bem-conduzidas é o auxílio a Espíritos sofredores que, atraídos por Espíritos bons que frequentam o grupo, comparecem e recebem esclarecimento e orientação.
São Luís explica (Cap. XXXI) que muitas reuniões espíritas assistem, sem saber, a Espíritos que precisam de instrução e que aproveitam o canal aberto pela Evocação e pela Prece para aproximar-se e receber ajuda. Este é, para Kardec, um dos serviços mais elevados que uma reunião espírita pode prestar.
Conceitos relacionados
- Mediunidade — Os médiuns são os canais das comunicações nas reuniões
- Evocação — A prática central de muitas reuniões
- Obsessão — As reuniões bem-conduzidas auxiliam Espíritos obsessores e obsidiados
- Prece — Fundamento de abertura, condução e fechamento das reuniões
- Identidade dos Espíritos — A verificação da identidade dos comunicadores é tarefa permanente nas reuniões