Evocação
Definição
A evocação é o ato de chamar um Espírito específico para estabelecer comunicação. No Espiritismo, a evocação é distinguida da invocação das religiões tradicionais: não se trata de rito mágico, mas de um chamado sincero e respeitoso, feito com finalidade séria, mediado por um médium e acompanhado de Prece.
Na codificação
Segundo O Livro dos Médiuns (§269-303), Kardec e os comunicantes estabelecem uma doutrina completa sobre a evocação:
Fundamentos da evocação (§269-275)
Por que os Espíritos respondem à evocação?
São Luís explica que os Espíritos se comunicam com os encarnados movidos por três razões fundamentais:
- Caridade: Espíritos elevados comunicam-se para instruir e ajudar
- Simpatia ou afeto: Espíritos que amaram os evocadores em vida respondem por amor
- Vaidade ou leviandade: Espíritos inferiores se manifestam por vaidade — gostam de ser chamados e de se mostrar
O chamado sincero da evocação cria uma "corrente de pensamento" que alcança o Espírito evocado, especialmente se há afeto genuíno de parte do evocador. O Espírito não é obrigado a vir — mas se tem boa vontade e condições de comunicar, costuma atender.
A quem se pode evocar?
- Qualquer Espírito que já habitou a Terra pode ser evocado em princípio
- Mas nem todos podem ou devem atender:
- Espíritos em missão ou muito ocupados podem não estar disponíveis
- Espíritos muito elevados raramente se comunicam diretamente em sessões comuns — agem por inspiração e por intermediários
- Espíritos em provações específicas podem não ter permissão de comunicar
Kardec é explícito: não se deve evocar um Espírito "para ver o que acontece" — a evocação tem propósito sério ou não tem razão de ser.
Evocação de pessoas vivas (§276-278)
Kardec examina a questão surpreendente: pode-se evocar o Espírito de uma pessoa ainda encarnada?
A resposta é sim, com importantes qualificações:
- Durante o sono, o perispírito se emancipa parcialmente do corpo e pode ser evocado e comunicar
- Em estado de vigília, o Espírito da pessoa evocada não se desprende do corpo, mas pode transmitir seu pensamento por uma espécie de influência fluídica — as respostas refletem o pensamento da pessoa, geralmente sem que ela saiba que foi "evocada"
- O valor das comunicações de vivos evocados é menor do que as de desencarnados: a interferência da personalidade consciente e inconsciente é muito maior
Evocação de animais (§279-281)
Kardec aborda também a questão de se animais podem ser evocados. A resposta é mais limitada:
- O princípio inteligente dos animais não tem a mesma individualidade que o Espírito humano e não subsiste com a mesma autonomia após a morte
- Comunicações que se apresentam como de animais evocados são geralmente influência imaginativa do médium ou mistificação de Espíritos que se fazem passar pelo animal
- Kardec recomenda cautela extrema com esse tipo de evocação
Casos difíceis (§285-288)
Suicidas
Os Espíritos de suicidas estão geralmente em estado de perturbação intensa imediatamente após o ato. A evocação prematura pode encontrar um Espírito confuso, desorientado, que não compreende o que aconteceu ou que está sofrendo as consequências imediatas. Para esses casos, Kardec recomenda esperar e, quando se evocar, fazê-lo com intenção caridosa de ajudar — não de satisfazer curiosidade.
Executados e mortos violentamente
Semelhante ao caso dos suicidas: a morte violenta provoca perturbação inicial. A evocação não deve ser prematura.
Recém-desencarnados (§282)
Kardec trata especificamente da questão de quando se pode evocar alguém que acaba de morrer. O período imediatamente após a desencarnação é geralmente de perturbação e recolhimento — o Espírito está se reorganizando para a nova existência. Evocar alguém neste período pode ser inconveniente e perturbador para o Espírito. A regra geral: esperar alguns dias, no mínimo; alguns Espíritos precisam de meses para se estabilizar suficientemente.
A linguagem dos Espíritos nas evocações (§289-303)
Kardec examina como os Espíritos se expressam durante as evocações, com implicações práticas para a verificação da autenticidade:
- Estilo pessoal preservado: um Espírito elevado, em vida, usava linguagem culta e precisa — continuará a fazê-lo. Um Espírito simples, em vida, expressava-se simplesmente — continuará.
- Evolução pós-morte: em alguns casos, o Espírito evoluiu após a desencarnação e sua linguagem é mais elevada do que em vida — o que pode surpreender familiares
- Interferência do médium: quanto mais o médium é intuitivo (vs. mecânico), mais sua personalidade e linguagem se mesclam à do Espírito — o que não invalida necessariamente a comunicação, mas exige discernimento
A fórmula de evocação geral de Santo Agostinho (§324)
No Cap. XXXI, Santo Agostinho comunica a Kardec uma fórmula para a evocação geral — não de um Espírito específico, mas de abertura do grupo para receber quem queira e possa se comunicar:
"Rogamos a Deus que permita aos bons Espíritos se comunicarem conosco e nos afastem os maus. Evocamos em geral os Espíritos que se interessem por nós para nos instruírem e protegerem. Se algum Espírito superior se dignar de se comunicar, pedimos-lhe que o faça. Afastamos formalmente os Espíritos mentirosos e perturbadores."
Santo Agostinho explica que esta fórmula funciona porque:
1. Coloca a comunicação sob a autoridade de Deus, não do grupo
2. Especifica a qualidade de Espíritos desejados (bons, que instruam e protejam)
3. Fecha explicitamente a porta para Espíritos perturbadores
4. Deixa a iniciativa do Espírito superior — não o força, convida
A seriedade como condição (§324)
São Luís, ao longo de todo o Cap. XXXI, insiste num princípio: a qualidade das comunicações depende da qualidade moral e da seriedade de intenção dos presentes. Uma reunião de pessoas que vêm por curiosidade ou entretenimento atrai Espíritos frívolos; uma reunião de pessoas que vêm com oração e finalidade séria atrai Espíritos sérios.
"A reunião não pode ter finalidade mais elevada do que a de instruir os encarnados e ajudar os Espíritos." — São Luís (§324)
Distinção da invocação mágica
O Espiritismo distingue cuidadosamente a evocação da invocação mágica:
- A invocação mágica pressupõe que o invocador tem poder sobre o espírito e pode forçar sua presença ou obediência por meio de rituais, símbolos ou fórmulas mágicas
- A evocação espírita reconhece que os Espíritos têm liberdade — podem atender ou não — e que a qualidade da resposta depende da qualidade moral dos presentes e da intenção do grupo
No Espiritismo, ninguém "comanda" Espíritos. A evocação é um convite, não uma ordem.
Conceitos relacionados
- Identidade dos Espíritos — A evocação exige verificação cuidadosa de quem realmente responde
- Mediunidade — A evocação requer um médium como canal de comunicação
- Obsessão — Evocações malconduzidas podem atrair Espíritos perturbadores
- Prece — Condição essencial para a evocação bem-conduzida
- Erraticidade — Os Espíritos evocados estão geralmente em estado errante