Livro 1869

O Espiritismo em sua Expressão Mais Simples (Obras Póstumas)

Allan Kardec — 1869

O Espiritismo em sua Expressão Mais Simples (Obras Póstumas)

Nota de identidade

O arquivo catalogado como O Espiritismo em sua Expressão Mais Simples corresponde, na sua extensão e conteúdo, às Obras Póstumas de Allan Kardec — compilação de manuscritos inéditos, artigos doutrinários e comunicações espíritas, organizada por Pierre-Gaëtan Leymarie após a morte de Kardec (31 de março de 1869) e adaptada para o público brasileiro por Louis Neilmoris. Inclui, como anexo, um manuscrito inédito de 1863 publicado pela Revista Espírita em novembro de 1904. A obra não deve ser confundida com o pequeno catecismo introdutório de mesmo nome (1862).

Estrutura

Introdução editorial

Biografia de Kardec narrada pelos editores (nascimento em Lyon em 1804 como Hippolyte-Léon Denizard Rivail, formação com Pestalozzi, contato com as mesas girantes em 1854-1855, publicação de O Livro dos Espíritos em 1857, fundação da Revista Espírita, morte em 1869) e o Discurso de Flammarion no Túmulo (lido por Camille Flammarion na cerimônia de sepultamento em abril de 1869, que sublinha a grandeza da obra codificadora e a serena convicção de Kardec diante da morte).

Primeira Parte — Ensaios doutrinários

Profissão de Fé Espírita Raciocinada (três seções):
- §I Deus: Prova racional da existência de Deus a partir da inteligência na Natureza. Deus possui sete atributos essenciais: infinito, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, único. A pluralidade de mundos e de seres inteligentes confirma a grandeza do Criador.
- §II Alma: A alma é distinta da matéria e sobrevive à morte. O perispírito é o invólucro fluídico que une alma e corpo.
- §III Criação: Os Espíritos são criados simples e ignorantes, progridem pela reencarnação em múltiplos mundos, nunca retrogradam. A pluralidade dos mundos habitados é pressuposto necessário da criação.

Manifestações dos Espíritos:
- §IV — Mecanismo das manifestações: o perispírito como instrumento fluídico das comunicações.
- Manifestações visuais: aparições vaporosas (fluídicas, não palpáveis) e tangíveis (adensamento do perispírito, tocáveis ao tato). Casos documentados de transfiguração e invisibilidade.
- Emancipação da alma: o sono como desprendimento parcial (a alma erra no espaço e pode se comunicar com outros Espíritos); sonambulismo como emancipação mais completa; êxtase como emancipação quase total com conservação de certa relação com o corpo.
- §V Bicorporeidade (Bilocation): casos em que o perispírito se separa do corpo durante a vida, produzindo aparições da pessoa em locais distantes. Nove casos documentados da obra de Perty, analisados por Kardec: alguns explicáveis pelo perispírito condensado, outros pela semelhança com Espíritos de terceiros.

§VI Catálogo de médiuns — taxonomia completa:
- Efeitos físicos: mesas, objetos
- Sensitivos: percebem presenças
- Audientes: ouvem vozes
- Falantes: transmitem mensagens oralmente
- Videntes: veem Espíritos no estado normal
- Sonambúlicos: em estado de emancipação
- Inspirados: influência nos pensamentos
- Pressentimentos / proféticos: intuição do futuro
- Escreventes / psicógrafos: três variedades — mecânico (a mão escreve sem intervenção da mente consciente), intuitivo (o pensamento passa pela mente do médium), semi-mecânico (misto)
- Curadores / receitistas: transmitem indicações medicinais

§VII Obsessão e possessão — Três graus: simples (médium percebe e pode resistir), fascinação (médium iludido pelo orgulho, acredita no que lhe é ditado), subjugação (constrangimento físico, atos involuntários). Mecanismo: interpenetração do perispírito do obsessor com o do obsediado. Antídoto: força moral. Exorcismo ineficaz. A oração e a ação magnética ajudam.

Estudos filosóficos:

  • Controvérsias sobre seres intermediários: resposta a magnetizadores que negam intervenção espiritual; Kardec demonstra que Espiritismo e magnetismo são complementares, não contraditórios.
  • Explicação do fenômeno da lucidez: a alma (não o fluido magnético isolado) é a fonte da clarividência sonambúlica; o perispírito é o intermediário.
  • A Segunda Vista: faculdade natural de ver a cadeia causa-efeito; o vidente não lê o futuro fixo, mas vê as consequências que decorrem das causas presentes — o que ainda pode ser modificado pelo livre-arbítrio.
  • Fotografia e telegrafia do pensamento: o perispírito de cada ser é individualizado pela matéria fluídica do ambiente. O pensamento cria imagens fluídicas que os Espíritos podem "ler" como fotografias. A simpatia e a antipatia decorrem da harmonia ou dissonância entre as atmosferas fluídicas individuais.

Estudo sobre a natureza do Cristo (9 seções):
- Única fonte válida sobre Jesus: os Evangelhos (não as Epístolas, não os concílios).
- Os "milagres" não provam divindade; o Espiritismo os explica como fenômenos naturais.
- As próprias palavras de Jesus demonstram dualidade e subordinação: "O Pai é maior do que eu"; "Vim não por minha vontade, mas enviado por Ele".
- Após a ressurreição: "Subo ao meu Deus e vosso Deus" — não "ao nosso Deus", o que provaria identidade.
- Os apóstolos (Pedro, Paulo, Estêvão) tratam Jesus como subordinado a Deus.
- O título Filho do Homem (de Ezequiel) significa "pertencente à humanidade".
- As disputas teológicas sobre a natureza de Cristo causaram 18 séculos de guerras religiosas. O essencial é a caridade, não a identidade metafísica de Jesus com Deus.

Artes, Beleza e Música:
- Influência perniciosa do materialismo nas artes: a decadência artística tem raiz moral; a nova geração quer manuais da Bolsa, não dicionários de rima.
- Regeneração das artes pelo Espiritismo: o Espiritismo fornecerá nova inspiração espiritual — art futura representará mães reunindo-se a filhos falecidos em formas radiosas, vítimas perdoando algozes, o invisível tornado visível.
- Teoria da beleza: a beleza física está ligada à elevação moral do Espírito. À medida que as almas se aperfeiçoam, os corpos se embelezam (os romanos antigos eram fisicamente mais rudes que os modernos). Dois comunicantes espíritas (Pamphile e Lavater) desenvolvem os temas da beleza absoluta vs. relativa.
- Música Celeste: caso de jovem músico que ouve, em estado de êxtase durante sessão, a "música dos Espíritos" — indescritivelmente mais bela que qualquer música terrestre.
- Música Espírita: duas comunicações do Espírito de Rossini sobre a harmonia como qualidade inata da alma; a música terrestre é apenas eco imperfeito da harmonia celeste; a música é essencialmente moralizadora.

Filosofia social:

  • O caminho da vida: alegoria da reencarnação como longa estrada através de florestas. "O velho Espírito morreu, mas o Eu é sempre o mesmo" — transformação, não aniquilação.
  • As cinco alternativas da Humanidade:
    • Materialismo: sem obrigações morais verdadeiras; o suicídio é racional; o egoísmo é lei natural.
    • Panteísmo: a alma se dissolve no Todo = equivalente ao nadismo.
    • Deísmo: Deus criador sem providência especial (independente) ou com providência (providencialista).
    • Dogmatismo: destino irrevogável, penas eternas, sem progresso após a morte — deixa oito problemas fundamentais sem resposta.
    • Doutrina Espírita: almas criadas iguais, progressivas, reencarnação, sem condenação eterna, solidariedade entre encarnados e desencarnados.
  • A morte espiritual: na reencarnação, todas as faculdades vão latentes — o "Espírito velho" morre, mas o Eu permanece como identidade contínua.
  • A vida futura: o homem não se preocupa com a vida futura porque esta é apresentada de modo irracional e vago. O Espiritismo a apresenta como fato palpável, encadeado ao presente pelo mesmo princípio causa-efeito que liga o hoje ao amanhã.
  • As Expiações Coletivas: aplicação da lei da lei de causa e efeito ao plano coletivo. Famílias, cidades, nações e raças têm responsabilidades coletivas. Os mesmos grupos reencarnam juntos para expiar o que praticaram juntos — explicando calamidades que atingem inocentes. A solidariedade estende-se ao passado e ao futuro.
  • O egoísmo e o orgulho: causas raiz de toda miséria social. O egoísmo origina-se do orgulho; o orgulho origina-se da visão limitada ao presente. A crença na vida futura e a consciência de vidas anteriores (que nivelam a todos) destroem o orgulho e o egoísmo, porque revelam que todos partiram do mesmo ponto e que as desigualdades atuais são transitórias.
  • Liberdade, igualdade, fraternidade: a fraternidade é a base — sem ela, igualdade e liberdade são impossíveis. O egoísmo e o orgulho são os inimigos dos três princípios. O Espiritismo os combate pela raiz.
  • As aristocracias: evolução histórica das formas de autoridade — patriarcal → força bruta → nascimento → dinheiro → inteligência → aristocracia intelecto-moral (inteligência + moralidade). Esta última, inevitável pelo curso do progresso, será o sinal do advento do bem na Terra.
  • Os desertores: análise dos que abandonam o Espiritismo: (1) os frívolos que queriam entretenimento; (2) os que esperavam exploração material; (3) os infiltrados intencionais; (4) os que enfraquecem por egoísmo ou orgulho. Os verdadeiros espíritas não desertam — encontram nas dificuldades provas que não os desanimam.
  • Ligeira resposta aos detratores: o Espiritismo é solidário apenas com quem pratica seus ensinos; não responde por charlatões que usam seu nome. Não é religião constituída (sem culto, ritos ou templos); é doutrina filosófica de efeitos religiosos. Proclama a liberdade de consciência e o livre-exame.

Segunda Parte — Manuscritos e comunicações

A minha primeira iniciação ao Espiritismo (autobiografia, 1854-1857):
Kardec narra com precisão científica seu processo de conversão: a rejeição inicial do fenômeno das mesas falantes ("uma mesa não tem cérebro para pensar"); o primeiro contato na casa da família Baudin (1855); o método experimental aplicado sistematicamente — "observar, comparar e julgar"; a conclusão de que os Espíritos são almas humanas limitadas pelo seu grau de progresso (não infalíveis); a revisão de O Livro dos Espíritos com mais de dez médiuns diferentes para garantir concordância.

Meu espírito protetor / Meu guia espiritual (1855-1856):
Primeiros contatos com o Espírito Zéfiro (protetor da família Baudin) e depois com o Espírito Verdade — que se manifesta por pancadas nas paredes do apartamento de Kardec, aponta erros nos manuscritos e promete assistência permanente.

Revelações da missão (1856-1869):
Série cronológica de comunicações sobre a missão de Kardec:
- Primeira revelação (30 abr. 1856): cesta se vira espontaneamente para Kardec — "Rivail, a tua missão é aí".
- Hahnemann confirma (7 mai. 1856): "Tem que cumprir aquilo com que sonha desde longo tempo."
- Espírito Verdade detalha (12 jun. 1856): a missão é rude; haverá ódios, calúnia, traição; exige humildade, coragem, prudência, devotamento e abnegação. "A missão dos reformadores é repleta de escolhos."
- Nota de 1867: Kardec atesta que tudo o que foi predito se realizou — os ataques, a calúnia, a traição dos mais próximos — mas que as satisfações morais superaram largamente o mal.
- Zéfiro (jan. 1857): anuncia que Kardec terá de reencarnar para completar a obra.
- Espírito Verdade (jun. 1860): confirma a reencarnação — "por alguns anos" ausente, voltará "em condições que te permitam trabalhar desde cedo".

Auto-de-fé em Barcelona (outubro de 1861):
Trezentos livros espíritas queimados publicamente por ordem do bispo. Kardec decide não reclamar a restituição após consultar o Espírito Verdade: "desse auto-de-fé resultará maior bem do que o que viria da leitura de alguns volumes". Os Espíritos afirmam ter inspirado o auto-de-fé para forçar a atenção da imprensa que permanecia indiferente ao Espiritismo. O evento produziu exatamente o efeito previsto: expansão das ideias espíritas na Espanha.

Meu sucessor (dezembro de 1861):
Espírito Verdade responde que o sucessor de Kardec está "escolhido, sem estar escolhido" (depende de seu livre-arbítrio). Será um "homem de energia e de ação", não um escritor meditativo como Kardec. Não será designado antes do momento certo para evitar cismas e rivalidades. "A ti incumbe a concepção, a ele a execução."

Regeneração da Humanidade (abril de 1866):
Uma das comunicações mais extensas e importantes da Segunda Parte. Anunciada como "Os tempos são chegados" (não mais apenas "se aproximam"):
- A transformação não será por cataclismo físico, mas por substituição gradual das gerações de Espíritos: os que "praticam o mal pelo mal" emigrarão para mundos inferiores; Espíritos mais adiantados encarnarão em seu lugar.
- "Em cada criança que nasça, em lugar de um Espírito atrasado e propenso ao mal, encarnará um Espírito mais adiantado e propenso ao bem."
- A nova geração se distingue por "inteligência e razão precoces, juntas ao sentimento inato do bem".
- A fé natural (raciocinada, não cega, que une em vez de dividir) será característica da nova geração.
- "O Espiritismo é a senda que conduz à renovação, porque destrói os dois maiores obstáculos: a incredulidade e o fanatismo."
- "Na divina máxima Fora da caridade não há salvação, a incredulidade e o fanatismo leem a sua própria condenação."

Constituição do Espiritismo (1868 — último manuscrito de Kardec, interrompido pela morte):
Plano detalhado de organização doutrinária:
- §I: Considerações preliminares — a doutrina atingiu maturidade suficiente para uma constituição formal.
- §II: Dos cismas — como evitá-los: precisão na formulação doutrinária; abertura ao progresso; tolerância com os dissidentes.
- §III: O chefe do Espiritismo — não um indivíduo (sujeito a abusos e morte), mas uma comissão coletiva.
- §IV: Comissão Central permanente — máximo 12 membros titulares, presidente eleito anualmente com autoridade apenas administrativa; fiscalizada por congressos gerais.
- §VIII: Do programa das crenças — necessidade de um credo preciso; os signatários tomariam o título de "espíritas professos".
- §IX: Vias e meios — os recursos financeiros como motor necessário; proposta de capitalização permanente.
- §X: Kardec propõe-se a renunciar a toda supremacia, tornando-se membro simples, e a ceder o produto de suas obras à comissão.
- O texto é interrompido antes dos "Princípios Fundamentais reconhecidos como verdades incontestáveis" — a morte de Kardec impediu a conclusão.

Credo Espírita (preâmbulo extenso):
- Os males da Humanidade derivam das imperfeições dos homens; a felicidade social exige melhoramento moral, não apenas leis melhores.
- O nadismo (crença em que nada existe após a morte) paralisa o progresso moral — elimina qualquer base para abnegação, fraternidade ou solidariedade.
- A crença na vida futura, conforme apresentada pelo Espiritismo (positiva, racional, encadeada ao presente), é o mais poderoso elemento de moralização — porque transforma o comportamento no presente ao lhe dar perspectiva.
- "Melhorando-se moralmente, os homens prepararão na Terra o reinado da paz e da fraternidade."

"Fora da caridade não há salvação" (pensamentos íntimos de Kardec encontrados entre seus papéis):
Kardec atesta pessoalmente que pratica o que ensina — recebeu pais de família na prisão, nunca recusou um pobre à porta, perdoa os que lhe foram ingratos. Concluí: "Compreendo uma religião que nos ensina a retribuir o mal com o bem."

Anexo — Imitação do Evangelho: Fenômeno de Clarividência (20 out. 1863):
Srta. V..., de Lyon, em estado de segunda vista, descreve com precisão o local onde Kardec trabalhava em Ségur (sala com três janelas, rodeada de jardins) e identifica o título do livro que ele estava escrevendo (Evangelho) — sem ter qualquer informação prévia. Kardec usa o caso para demonstrar a realidade da clarividência e, ao mesmo tempo, criticar a quiromancia: a Srta. V... não "viu" na mão de Kardec, mas em seu próprio Espírito — faculdade que os pretensos quiromantes inconscientemente possuem e equivocadamente atribuem às linhas da mão.

Argumento central

As Obras Póstumas são simultaneamente uma enciclopédia menor do Espiritismo (Primeira Parte) e um documento autobiográfico e histórico (Segunda Parte). A linha que atravessa o livro inteiro é a demonstração de que o Espiritismo é uma doutrina filosófica e científica — não religiosa no sentido institucional — cujas bases estão nas leis da Natureza e cuja força está na razão e nos fatos, não na fé cega. A vida futura não é uma promessa vaga: é uma continuação lógica e encadeada da vida presente. A caridade não é mérito espiritual acumulado: é dever simples, exatamente como qualquer obrigação cotidiana. E a transformação da Humanidade não virá por cataclismo ou milagre: virá pela substituição gradual das gerações de Espíritos que habitam a Terra.

Conceitos relacionados

  • Codificação Espírita — A Constituição do Espiritismo é o último projeto de organização da Codificação
  • Perispírito — Chave explicativa de todos os fenômenos: manifestações, obsessão, bilocation, clarividência
  • Natureza de Jesus — O ensaio dos 9 itens é o tratamento mais extenso e polêmico sobre a natureza de Cristo
  • Mediunidade — Catálogo completo dos tipos de médiuns
  • Obsessão — Três graus, mecanismo, antídoto
  • Reencarnação — "O caminho da vida"; as cinco alternativas; a morte espiritual; a nova geração
  • Lei de Causa e Efeito — As expiações coletivas aplicam a lei ao plano coletivo
  • Imortalidade da Alma — A vida futura como fato positivo, não esperança vaga
  • Caridade — "Fora da caridade não há salvação" em contexto histórico e pessoal
  • Egoísmo — Análise completa de suas causas e do remédio espírita
  • Lei do Progresso — A aristocracia intelecto-moral e a regeneração da Humanidade
  • Três Revelações — Referências à terceira revelação (o Espiritismo) como completamento das anteriores
  • Livre-arbítrio — A segunda vista não lê destino fixo; o sucessor "está escolhido sem estar escolhido"

link Páginas que referenciam esta

Conceitos

Temas