Dos Hippies aos Problemas do Mundo
Síntese
Transcrição da segunda entrevista de Chico Xavier no programa "Pinga-Fogo" da TV Tupi Canal 4, São Paulo, realizada em dezembro de 1971, na semana do Natal. A primeira edição do programa ocorrera em 28 de julho do mesmo ano. Nesta segunda sessão, com duração de mais de quatro horas ao vivo, Chico Xavier responde a perguntas de jornalistas, parlamentares, cientistas e telespectadores sobre temas de "palpitante atualidade": umbandismo, reencarnação, pena de morte, crianças excepcionais, hippies, transplantes, cremação, homossexualidade, divórcio, superpopulação, aborto, amor livre, entre outros.
O livro é publicado pela FEESP (Federação Espírita do Estado de São Paulo), com prefácio da própria Federação e apresentação de J. Herculano Pires, que destaca a "façanha" do Canal 4 em colocar Chico Xavier "ao vivo diante do povo" e sugere que ele seria "candidato natural ao Prêmio Nobel da Paz." Ao longo de toda a entrevista, Chico invoca constantemente a presença de Emmanuel ao seu lado, transmitindo orientações e citações do benfeitor espiritual, além de referências a André Luiz e a Bezerra de Menezes.
Estrutura da obra
A obra se organiza em 33 capítulos curtos, cada um correspondendo a um tema abordado na entrevista:
- Entrevistadores — Apresentação da equipe: Almir Guimarães (mediador), Vicente Leporace, Freitas Nobre (deputado federal), Dr. Ernani Guimarães Andrade (parapsicólogo), Durval Monteiro, Saulo Gomes. Chico abre citando São Paulo, Epístola a Tito 3:1-2.
- Umbandismo e vida após morte — Respeito ao umbandismo como "grande legião de companheiros consagrados à caridade." Continuidade da vida profissional após a desencarnação.
- Significação do Natal — Jesus Cristo como tutelador do planeta, cujo Natal representa a renovação dos votos de cristianização pessoal e coletiva.
- Ciência e Espiritismo — Dr. Ernani cita pesquisas de Ian Stevenson (Univ. Virginia) e Banarjee (Índia) sobre reencarnação. Chico/Emmanuel afirmam a importância de aliar a verificação biológica da reencarnação ao seu "lado moral": "a cada um segundo as suas obras."
- O Brasil atual — Reflexão sobre a situação política do Brasil, com apelo à ordem e à preservação da liberdade cristã.
- Auxílios e curas — Distinção entre a missão do livro mediúnico e o atendimento fraterno. Chico esclarece que não faz proselitismo.
- Plástica e Zé Arigó — A cirurgia plástica regeneradora é legítima; sobre o Dr. Fritz e a mediunidade de Arigó, pede cautela para avaliar continuadores.
- Espaço e efluviografia — Emmanuel cita diversidade de formas em outros planetas (cf. O Consolador). Allan Kardec em O Livro dos Médiuns sobre formas em outros mundos.
- Juventude — Defesa da compreensão e do diálogo com os jovens, contra o amor possessivo. Cita Q. 385 de O Livro dos Espíritos sobre os filhos serem espíritos de outras condições.
- A pena de morte — Emmanuel pede que se recorde a Parábola do Bom Samaritano: "a vítima era um homem" — sem qualquer qualificação. Cárcere é cirurgia espiritual, mas nunca a morte em nome da justiça.
- Nóbrega e congelamento de corpos — Emmanuel confirma que foi o Padre Manuel da Nóbrega. Sobre corpos congelados, o espírito permanece relativamente ligado enquanto a vida orgânica estiver assegurada.
- A carne — Alimentação carnívora ainda é necessidade da maioria; adaptação deve ser gradual e com orientação médica.
- A salvação — "A Providência Divina tem pressa de que o homem seja bom, mas acreditar, isso fica para quando o homem possa realizar em si mesmo o campo da sua própria fé" — Emmanuel.
- As crianças excepcionais — Relação entre suicídio/homicídio em vidas passadas e deficiências congênitas. A idiotia como "processo de internação que solicitamos, por nós mesmos" para reestruturação do corpo espiritual.
- Planejamento familiar e aborto — Kardec em O Livro dos Espíritos sobre não controlar a natalidade enquanto não perturbar a natureza. Planejamento é legítimo; aborto traz "consequências ruinosas no corpo espiritual." Relato de mulher que praticou seis abortos e reencarnara estéril.
- Os Hippies — Respeito ao trabalho artístico dos hippies brasileiros; Emmanuel ensina a "respeitar a criatura humana pelo trabalho que ela oferece à comunidade."
- Transplantes — André Luiz afirma que a ciência deve prosseguir com cautela; o problema da rejeição é de incompatibilidade de tecidos, e a ciência conseguirá superá-lo como superou no transplante de córnea.
- Catástrofes, cremação e morte tranquila — Mortes coletivas são "provações coletivas adquiridas coletivamente." Cremação é legítima segundo Emmanuel em O Consolador, com 72 horas de espera nos trópicos. Morte suave depende de consciência tranquila.
- Milagres — Relatos pessoais de Chico sobre visões na Igreja Católica (hóstias transformadas em flores de luz, irradiações no altar). Visita pessoal a Lourdes. Ecumenismo: "toda religião que nos traz esta legenda de paz e de amor é um caminho santo."
- Materialização — Esclarecimento sobre clarividência mediúnica em sessões de materialização.
- O Pai de Chico — Episódio cômico e tocante: o pai de Chico, vendedor de bilhetes de loteria, pediu que Emmanuel ajudasse a ganhar na loteria. Frustrado, reclamou: "Seus espíritos estão muito atrasados... gente que já morreu há muitos mil anos, que em vez de assinarem Manuel, assinam Emmanuel."
- Censura espiritual — Emmanuel censura o que pode ser publicado: "do mundo espiritual para nós deve vir aquilo que for de construtivo."
- Divórcio e superpopulação — Defesa do divórcio como "medida humana," usando a analogia do desquite como "carro de luxo doado sem o motor." Sobre superpopulação, a Terra comporta talvez 30 bilhões, com exploração do mar.
- Futebol — Chico se revela corintiano; lamenta a saída de Pelé da Seleção.
- Homossexualidade — Maioria dos casos relacionada à troca de sexo entre encarnações (transexualidade reencarnatória). Pede legislação futura que incorpore "todos os filhos da humanidade" à família, sem abalar suas bases. A frustração afetiva como "tipo de fome capaz de superlotar sanatórios."
- Consciência da reencarnação — André Luiz informa que a consciência da reencarnação é "fenômeno raríssimo"; 99% dos casos ocorrem em estado de torpor, semelhante à anestesia.
- Amor livre e jogo — Emmanuel: "o amor como fonte divina é o oceano de força em que nós todos vivemos, mas o sexo é responsável quando instrumento do amor" — o amor precisa de represas para não fazer "inundação destrutiva."
- Chico escritor? — Chico explica que renunciou a escrever em nome próprio por orientação de Emmanuel, dedicando suas forças à mediunidade.
- Apoio espiritual — Resposta comovente ao cantor Blecaute, que pedia ajuda em momento de dificuldade pessoal.
- Entrevistas em público — Emmanuel só permitiu aparições públicas após Chico completar 100 livros (1969): "depois que você for o aparelho mediúnico para o lançamento de 100 livros, nós permitiremos que você converse publicamente."
- Co-criação e conquistas da ciência — O homem é "co-criador do criador, cooperador consciente de Deus." As conquistas viram armas porque os religiosos não praticam o que pregam.
- Poema psicografado — Chico psicografa ao vivo, diante das câmeras, o poema "Brasil" assinado por Castro Alves, em versos patrióticos: "A humanidade que chora / Clamando: 'Senhor e agora?' / O Cristo aponta: Brasil!"
- Agradecimentos — Encerramento com menção carinhosa a Pedro Leopoldo, Uberaba e São Paulo.
Ensinos doutrinários principais
Reencarnação e ciência (Cap. 4)
Emmanuel e André Luiz pedem que as pesquisas sobre reencarnação (Stevenson, Banarjee) incorporem o "lado moral" do fenômeno: "a cada um segundo as suas obras", ligando o fenômeno biológico à lei cármica dos Evangelhos.
Crianças excepcionais e o corpo espiritual (Cap. 14)
Chico oferece uma das explicações mais diretas e tocantes da doutrina sobre deficiências congênitas: "Quando cometemos o suicídio, quando perpetramos o homicídio, conscientemente nós dilapidamos em nós mesmos determinadas estruturas do nosso corpo espiritual." A reencarnação em corpo deficiente é o único meio de reestruturação: "a idiotia não é senão o processo de internação que solicitamos, por nós mesmos, com as nossas necessidades." E arremata: "Nada dói tanto, e nada nos suscita tanto amor quanto uma criança doente."
Perispírito e efluviografia soviética (Cap. 8)
Sobre a descoberta do "corpo bioplásmico" pelo casal Kirlian na URSS, Chico identifica-o com o perispírito e destaca que só pela existência do corpo espiritual se pode compreender fenômenos como a produção de adrenalina, acetilcolina e bradicilina. "A mente não depende da organização física para se manifestar em seu pleno equilíbrio."
Pena de morte e a Parábola do Bom Samaritano (Cap. 10)
Emmanuel pede que se note o detalhe essencial da parábola: a vítima é descrita apenas como "um homem" — sem raça, idade, condição social ou qualificação moral. Todo ser humano merece respeito. "Os últimos, que estão nas prisões, são doentes que a Justiça saberá tratar. Mas a pena de morte é alguma coisa que merece a nossa oração."
O lar como célula social (Caps. 9, 23, 25, 27)
Tema recorrente: a importância da família como base da sociedade. Sobre juventude: "os nossos filhos são espíritos que vieram de outras condições, diferentes das nossas. São credores do nosso maior respeito" (citando Q. 385 de O Livro dos Espíritos). Sobre divórcio: medida humana necessária, mas com cautela. Sobre amor livre: "no terreno do sexo o amor precisa de represas" para não criar "calamidades sentimentais."
Emmanuel como Padre Manuel da Nóbrega (Cap. 11)
Confirmação direta e enfática: "Ele sempre confirmou isso. E dou disso testemunho." Freitas Nobre acrescenta que encontrou em documentos históricos a assinatura de Nóbrega como "E. Manuel" ou "Emmanuel." Chico relata ter sido levado por Emmanuel ao Pátio do Colégio em São Paulo, onde o espírito orou pela metrópole futura.
Aborto e consequências perispirituais (Cap. 15)
Relato pessoal de caso acompanhado desde 1936: mulher que praticou seis abortos, vista no mundo espiritual em "condições muito lamentáveis," reencarnara com esterilidade irreversível — diagnosticada como "hipertrazia glandular cística do endométrio." André Luiz confirmou que o anseio de ser mãe nesta vida reconstitui os órgãos genésicos para uma vida futura.
Contexto histórico
A entrevista ocorre durante o regime militar brasileiro (1964-1985). Chico demonstra cautela diplomática ao falar da situação política, elogiando a ordem vigente e pedindo respeito às autoridades, ao mesmo tempo em que defende liberdades civis como o divórcio. J. Herculano Pires observa que o "Pinga-Fogo" inaugurou uma nova fase na comunicação mediúnica, colocando Chico Xavier diretamente diante do povo pela televisão. O programa atingiu audiência recorde e consolidou a imagem pública de Chico Xavier como figura de autoridade moral e equilíbrio.
A obra documenta também o momento em que Chico já publicara 112 livros (citado por Almir Guimarães na abertura), e revela que Emmanuel só autorizou aparições públicas após o centésimo livro (1969).
Obras e fontes mencionadas
- O Livro dos Espíritos, Q. 385 (filhos como espíritos independentes)
- O Consolador (Emmanuel) — sobre cremação nos trópicos; formas em outros planetas
- O Livro dos Médiuns — sobre diversidade de formas em outros planetas
- Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho — mencionado como livro cuja renda foi doada
- Pesquisas de Ian Stevenson (Univ. Virginia) e Banarjee (Índia) sobre reencarnação
- Efluviografia do casal Kirlian (URSS) — o "corpo bioplásmico"
Referências cruzadas
- Continuação do primeiro programa Pinga-Fogo (28 de julho de 1971)
- Complementa Religião dos Espíritos no ensino de Emmanuel sobre divórcio, família e sexualidade
- A explicação sobre crianças excepcionais (Cap. 14) é coerente com a tabela suicídio→doença congênita de Evolução em Dois Mundos (Segunda Parte, Cap. 17)
- O caso do aborto (Cap. 15) complementa os mecanismos descritos por André Luiz em Entre a Terra e o Céu (carne como filtro purificador)