Bicorporeidade
Definição
A bicorporeidade (também chamada bilocalização ou bilocação) é o fenômeno pelo qual um ser parece estar simultaneamente em dois lugares distintos. No entendimento espírita, o fenômeno se explica pela separação parcial ou total do Perispírito em relação ao corpo físico, permitindo que a personalidade se manifeste à distância enquanto o corpo permanece no local original.
Na codificação
Segundo O Livro dos Médiuns (§115-125), São Luís e Erasto explicam o mecanismo e os casos históricos com detalhe:
O mecanismo (§115-120)
O perispírito — corpo fluídico que une o Espírito ao corpo material — pode, em certas condições, se separar parcialmente do organismo físico sem causar a morte. Quando isso ocorre, o ser apresenta duas manifestações simultâneas:
- O corpo físico: permanece no local original, geralmente em estado de letargia, sonolência ou transe
- O perispírito livre: se manifesta em outro local com aparência reconhecível, podendo ser visto, ouvido e, em alguns casos, até tocado
A diferença fundamental entre a bicorporeidade e a desencarnação é o grau de separação: na desencarnação, o laço fluídico (o chamado "cordão de prata") se rompe definitivamente; na bicorporeidade, ele permanece, e o perispírito retorna ao organismo.
Condições para a bicorporeidade
São Luís identifica as condições que favorecem o fenômeno:
- Estado de emancipação: sono profundo, transe mediúnico, estados febris intensos — qualquer condição que relaxe o controle consciente do Espírito sobre o corpo físico facilita o desprendimento parcial
- Vontade intensa: em alguns casos, a determinação fortíssima de estar em outro lugar — para ajudar alguém, para cumprir uma missão, para transmitir uma mensagem urgente — pode provocar o desprendimento sem que o ser tenha plena consciência do processo
- Constituição mediúnica especial: alguns seres têm perispíritos mais "soltos" por constituição, tornando o fenômeno mais fácil
Casos históricos (§115-125)
Kardec registra e examina casos históricos de bicorporeidade atribuídos a santos e personagens religiosos. A abordagem é característica do método espírita: em vez de negar os fatos ou de aceitá-los como milagres inexplicáveis, Kardec examina se são compatíveis com as leis naturais identificadas pela Doutrina.
O resultado é que a bicorporeidade não é um milagre no sentido de suspensão das leis naturais: é um fenômeno natural que se explica pelas propriedades do perispírito. O que era tido por milagroso em São Francisco Xavier, em São Martinho e em outros santos e contemplativos é, para o Espiritismo, manifestação de faculdades que a natureza forneceu ao ser, e que alguns indivíduos — por constituição perispiritual ou por desenvolvimento espiritual — conseguem exercer em maior grau.
Erasto acrescenta que a bicorporeidade nas tradições religiosas era frequentemente acompanhada de oração intensa ou de estados extáticos — o que corresponde exatamente às condições de emancipação identificadas pelo Espiritismo: nesses estados, o controle consciente do Espírito sobre o corpo se relaxa e o perispírito pode atuar com maior liberdade.
Consciência durante a bicorporeidade
Um ponto que Kardec e os comunicantes examinam com cuidado: o ser que se bilocou tem consciência do que faz durante a manifestação à distância? A resposta é variável:
- Em alguns casos, o ser tem memória parcial ou total do que seu perispírito fez à distância, especialmente ao despertar
- Em outros, não tem qualquer lembrança e só toma conhecimento pela narrativa das testemunhas
- Em casos mais raros, o ser conserva consciência simultânea dos dois locais durante o fenômeno — o que é descrito como uma experiência de extraordinária lucidez
Relação com o sonambulismo e a emancipação da alma
A bicorporeidade é o caso extremo do que O Livro dos Espíritos (Q. 400-455) chama de emancipação da alma durante o sono ou estados alterados. O sonambulismo natural, os sonhos lúcidos e as visitas a distância durante o sono são formas mais comuns e menos conspícuas do mesmo fenômeno. A bicorporeidade com aparição física visível é a versão em que o perispírito se densifica o suficiente para ser percebido por não-médiuns.
A transfiguração (§121-125)
Relacionada à bicorporeidade está a transfiguração: o fenômeno pelo qual o médium em transe assume aparência física diferente da sua — o rosto, a voz e os gestos mudam para corresponder à personalidade do Espírito que se manifesta.
Kardec explica que na transfiguração o perispírito do Espírito comunicante envolve o do médium, modificando temporariamente a aparência perceptível por quem observa. As transformações podem ser sutis (mudança na expressão e na voz) ou marcadas (o rosto parece literalmente diferente, irreconhecível).
A transfiguração difere da bicorporeidade: nesta, o perispírito do encarnado se desloca para outro local; naquela, o perispírito de um desencarnado se sobrepõe ao do encarnado presente.
Valor doutrinário
Para Kardec, o exame rigoroso da bicorporeidade serve a um propósito filosófico fundamental: dissolver a categoria do milagre como exceção às leis naturais. Ao mostrar que fatos extraordinários, historicamente atribuídos à intervenção direta de Deus, têm explicação natural no âmbito das propriedades do perispírito e do fluido universal, o Espiritismo não diminui a grandeza dos fenômenos — pelo contrário, os integra numa visão coerente de um universo governado por leis universais.
O Deus do Espiritismo não precisa suspender as próprias leis para manifestar o extraordinário: criou leis suficientemente ricas para que o extraordinário seja natural.
Conceitos relacionados
- Perispírito — O veículo que se separa parcialmente do corpo durante a bicorporeidade
- Mediunidade — A bicorporeidade como manifestação da capacidade mediúnica de emancipação
- Desencarnação — A bicorporeidade é separação temporária; a morte, permanente
- Fluido Universal — O agente pelo qual o perispírito age à distância