Bezerra de Menezes — Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil
Canuto Abreu — 1950
Bezerra de Menezes — Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil
Nota sobre identificação
O arquivo-fonte (a-doutrina-espirita.json.gz) foi incorretamente catalogado como "A Doutrina Espírita" de Bezerra de Menezes (1897). O conteúdo real é "Bezerra de Menezes — Subsídios para a História do Espiritismo no Brasil desde o ano de 1895" de Canuto Abreu (1892–1980), condensado de artigos publicados na revista Metapsíquica nos anos 1930, publicado em formato de opúsculo em 1950 pela FEESP (Federação Espírita do Estado de São Paulo) por ocasião do II Congresso Espírita do Estado de São Paulo. Reedição de 1981 pelo 150° aniversário do nascimento de Bezerra. Prefácio de Paulo Alves Godoy.
Sobre o autor: Canuto Abreu
Dr. Silvino Canuto Abreu (Taubaté, SP, 19/1/1892 — São Paulo, 2/5/1980). Farmacêutico aos 17 anos, médico (1923), advogado (1916). Nunca aceitou retribuição por serviços médicos. Profundo conhecedor da História do Espiritismo — percorreu a Biblioteca do Museu Britânico, do Vaticano e Nacional de Paris. Em 1957, publicou O Primeiro Livro dos Espíritos de Allan Kardec em edição bilíngue (francês-português), reproduzindo a 1ª edição de 1857 (antes da refundição de 1860). Durante a II Guerra Mundial, foi depositário de documentos históricos da sociedade que dirigia os destinos do Espiritismo na França. Diretor-Geral da Sociedade Metapsíquica de São Paulo (depois fundida na FEESP).
Visão geral
Biografia intelectual e espiritual de Bezerra de Menezes e crônica do movimento espírita no Rio de Janeiro desde os primórdios (1853) até a presidência de Bezerra na FEB (1895). Canuto Abreu construiu a obra como um mosaico de fontes primárias: artigos do Reformador, da Revue Spirite, relatos de testemunhas diretas, escritos do próprio Bezerra (artigos de Max em O Paiz, romance Casamento e Mortalha, artigos no Reformador).
O livro encerra com a transcrição integral das "Instruções de Allan Kardec aos Espíritas do Brasil", comunicação recebida pelo médium Frederico Júnior na Sociedade Espírita Fraternidade (Rio de Janeiro, 5 de fevereiro de 1889).
Bezerra de Menezes — Biografia
Infância e formação
Nasceu em 29 de agosto de 1831, freguesia do Riacho do Sangue, Ceará. Aos 6 anos sabia ler, aos 7 iniciou o curso primário na Vila do Frade, aos 11 começou Humanidades. Aos 13 anos já era professor de latim na própria escola. Embarcou para o Rio de Janeiro em 5 de fevereiro de 1851 com 20 anos e 38$000 no bolso. "Dividindo meu tempo pelo estudo e pelo trabalho de ganhar o pão, tinha por via de regra a bolsa a tocar matinas."
Canuto Abreu narra um episódio revelador: Bezerra estava sem dinheiro para o aluguel quando bateram à porta — era um moço desconhecido que queria aulas de matemática e pagou adiantado. O moço nunca mais apareceu. Bezerra dizia: "Foi a única vez em que estudei a fundo uma lição de matemática e ela me valeu de alguma coisa."
O médico dos pobres
Concluiu medicina aos 25 anos (1856). Abriu consultório no centro mas a clientela era dos que não podiam pagar: "Foram caindo na rede alguns peixinhos, mas, coitadinhos, tão magros, que não davam para a consoada dos rapazes." Em 1857, membro da Academia Nacional de Medicina. Definição clássica:
"O médico verdadeiro é isto: não tem o direito de acabar a refeição, escolher a hora, de inquirir se é longe ou perto... O que pede um carro a quem não tem com que pagar a receita — esse não é médico, é negociante de medicina."
Carreira política e perda
Eleito vereador pelos liberais de São Cristóvão em 1860 (aos 29 anos) — renunciou ao posto militar (cirurgião-tenente) para ser elegível. "Batalhador violento e irreverente." Deputado geral em 1867. Dez anos de oposição combativa. Presidente da Câmara Municipal (1880). Fundador da Estrada de Ferro Macaé-Campos.
Casado por amor. A primeira esposa morreu em menos de 20 horas, deixando dois órfãos (3 anos e 1 ano): "As glórias mundanas, que havia conquistado mais por ela do que por mim, tornaram-se-me aborrecidas senão odiosas..." Casou-se em segundas núpcias — "aquela que estava destinada a ser o anjo do lar nas horas mais tristes, nas horas mais alegres, até lhe fechar os olhos."
Conversão ao Espiritismo
Joaquim Carlos Travassos (pseudônimo "Fortúnio"), primeiro tradutor brasileiro de Kardec, entregou-lhe O Livro dos Espíritos. Bezerra leu no bonde para a Tijuca:
"Lia. Mas não encontrava nada que fosse novo para meu Espírito. Entretanto tudo aquilo era novo para mim!... Eu já tinha lido ou ouvido tudo o que se achava em O Livro dos Espíritos... parece que eu era espírita inconsciente, ou, como se diz vulgarmente, de nascença."
Levou cerca de dez anos aprofundando conhecimentos antes da adesão pública. Em 16 de agosto de 1886, perante "um auditório de cerca de duas mil pessoas da melhor sociedade" na Guarda Velha, proclamou sua adesão. "Desde esse memorável dia, o kardecismo passou a ter um chefe no Brasil."
O fato mais impressionante de evidência mediúnica para Bezerra: o diagnóstico de sua dispepsia por João Gonçalves do Nascimento, feito a partir de um papel que dizia apenas "Adolfo, tantos anos, Tijuca".
Os artigos de Max
Pseudônimo sob o qual escreveu em O Paiz de novembro de 1886 a dezembro de 1893. Canuto Abreu considera: "Não possuímos em língua brasileira maior repertório doutrinário do kardecismo. Ninguém falou com maior eloquência, maior sinceridade, maior lógica."
Cronologia do Espiritismo no Brasil (1853–1895)
1° Período (1853–1863): As origens
Primeiro grupo espírita: Melo Morais, homeopata e historiador, reunia no Rio de Janeiro o Marquês de Olinda, o Visconde de Uberaba, o General Pinto "e outros vultos notáveis da época" — o Espiritismo começou pela nata social. Em 1860, primeiros livros em português: Os Tempos São Chegados (Casimir Lieutand) e O Espiritismo na sua Expressão Mais Simples (trad. Alexandre Canu). Jornal do Comércio deu comentário favorável em 23 de setembro de 1863.
Os Primeiros Homeopatas (antes de Kardec)
Bento Mure (francês) e João Vicente Martins (português-brasileiro) chegaram ao Brasil em 1840 como homeopatas neoespiritualistas — antes de Kardec. Mure era clarividente; Martins, psicógrafo. Divisa: "Deus, Cristo e Caridade". Aplicavam passes como ato religioso — "Foram os homeopatas que lançaram os passes, não os espíritas. Estes continuaram a tradição." Introduziram irmãs de caridade e princípios vicentinos no Brasil (1843). Foram "os maiores médicos dos pobres, que o Brasil conheceu" antes de Bezerra.
2° Período (1863–1873): Primeiros centros
Artigo-réplica de Olímpio Teles de Menezes e outros (27/9/1863) ao Diário de Bahia colocou o Brasil em destaque aos olhos de Kardec (Revue Spirite, 1864). Primeira revista espírita brasileira: O Eco de Além-Túmulo (1869).
3° Período (1873–1883): O Grupo Confucius
Fundação do Grupo Confucius (2 de agosto de 1873) — primeira entidade jurídica do Espiritismo no Brasil. Diretoria: Dr. Sequeira Dias (presidente), Dr. Bittencourt Sampaio, Prof. Casimir Lieutaud, Dr. Joaquim Carlos Travassos (secretário-geral). Divisa: "Sem caridade não há salvação." Três serviços inestimáveis: a primeira tradução das obras de Kardec, a primeira assistência homeopática gratuita, e a primeira revelação do nome do guia espiritual do Brasil — Ismael.
Primeira cisão: art. 28 dos estatutos adotava somente O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns (espiritismo "puro"). Os "kardecistas" queriam aliança com o Evangelho. Ismael apoiava os kardecistas: "O Brasil tem a missão de cristianizar. É a terra da promissão... Não foi por acaso que tomou o nome de Vera Cruz, de Santa Cruz... Onde estiver esta bandeira, aí estarei eu — Ismael."
A divergência extinguiu o Grupo em menos de três anos. Os kardecistas fundaram a "Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade" (26/4/1876), de onde saíram por nova cisão os "místicos" para a "Sociedade Espírita Fraternidade" (2/3/1880), levando o estandarte de Ismael.
4° Período (1883–1893): Fundação da FEB e turbulência
Augusto Elias da Silva lança o Reformador (21/1/1883). Bezerra aconselhou: "contrapor ao ódio, o amor, e agir com discrição, paciência e harmonia." Fundação da Federação Espírita Brasileira (2/1/1884) por Elias, Figueira, Quadros, Xavier Pinheiro e Romualdo Nunes. Bezerra não quis ser fundador.
Instruções de Allan Kardec (5/2/1889): comunicação do Espírito de Kardec via Frederico Júnior na Fraternidade. Bezerra assume a presidência da FEB em 1889. Cria sessão semanal de estudo de O Livro dos Espíritos. Tentativa fracassada de um "Centro" unificador.
O Professor T — Canuto Abreu não dá nome completo mas descreve um agente de divisão: inteligente, operoso, com esposa médium notável, "foi durante toda a vida o médium do escândalo para os kardecistas." A separação entre "místicos" e "científicos" se agravou.
República e Novo Código Penal (outubro 1890): quase criminalizou o Espiritismo. O "Anjo Vermelho" — pânico no movimento. Os "científicos" fecharam as tendas; os "místicos" continuaram "escondidos como os primeiros cristãos". O Reformador interrompeu publicação pela primeira vez (fins de 1891). Em 1893, a Federação caiu nas mãos dos "científicos" — renegou abertamente o kardecismo. "Tudo fechado. Tudo mudo. Só Max, o incansável, escrevia." Encerrou os Estudos Filosóficos em O Paiz em 25 de dezembro de 1893.
5° Período (1894–1904): Restauração e Bezerra na presidência
Três homens restauram a FEB em 1894: Elias da Silva, Fernandes Figueira e Alfredo Pereira. Presidência confiada a Dias da Cruz (espiritista "puro"). Novo programa de "meio termo" entre científicos e místicos.
A Assistência aos Necessitados: instituída em janeiro de 1890 por Polidoro de São Tiago, nos moldes vicentinos. Silenciosa mas crescente — enquanto a sessão de sexta-feira reunia máximo 30 ouvintes, a Assistência recebia multidões todos os dias. "A flor de sombra, que não tinha tribuna de proselitismo nem personalidade jurídica, começou a ofuscar pelo perfume e pelo mel a flor de retórica."
Os três neófitos de 1894 — lição central de Canuto Abreu:
- Antonio Alves da Fonseca: convertido pela caridade — ficou na Assistência até o fim
- João Lourenço de Souza: atraído pela utilidade (organizou a Livraria) — saiu quando os lucros iam para os necessitados
- Leopoldo Cirne: seduzido pela filosofia — era materialista, leu apenas a Introdução de O Livro dos Espíritos e se converteu; saiu quando a Assistência venceu sua Federação na luta interna (1914)
A lei: "Os que defendem o Espiritismo pela caridade que ele pode praticar, esses ficarão fiéis até o fim. E serão salvos..."
Júlio César Leal presidente (1895): descambou para o "kardecismo" (pró-científicos), alienou os místicos. Crise de julho — renúncia de Leal. Alfredo Pereira, Elias, Dias da Cruz e Figueira levam a candidatura de Bezerra.
"Iremos todos contigo"
Bezerra vai ao Grupo Ismael ouvir seu guia espiritual Santo Agostinho (através de Frederico Júnior). Lacrimoso, expõe as dificuldades. Bittencourt Sampaio lembra a Assistência. Santo Agostinho responde:
"Aceita o convite. É um chamado. Já te dissemos mais de uma vez que a união dos espíritas e a sua orientação te foram confiadas. Não duvides, nem te preocupes com as dificuldades. Faze o trabalho do homem, sem cuja boa vontade nada podemos."
Bezerra aceita. O Espírito promete: "Iremos todos contigo!"
Canuto Abreu explica o alcance: era um "tratado espiritual de aliança" entre as três mais fortes correntes — a Federação, o Grupo Ismael e a Assistência. A falange de Ismael, representada na Terra pelo pequeno grupo mas formada no Espaço de forte contingente de Espíritos cristófilos, ia com Bezerra para a Federação.
Eleição: 3 de agosto de 1895, 20 místicos e 2 científicos presentes. Bezerra eleito com 19 votos. Sua posse: extinguiu sessões de academicismo, restabeleceu estudo semanal da Doutrina, encerrou com prece a Deus, a Jesus e a Maria. "Era a fase dos místicos, que dura até hoje."
As Tensões Doutrinárias
"Científicos" vs "Místicos"
Divisão fundamental. "Científicos" encaravam o Espiritismo como ciência; "místicos" insistiam na base evangélica cristã. Bezerra era do grupo dos "místicos" — kardecista pelo raciocínio, cristão espírita por convicção.
Espiritismo vs Kardecismo
Canuto Abreu distingue Doutrina Espírita (o que está em O Livro dos Espíritos) de Kardecismo (o Espiritismo acrescido da moral cristã das demais obras). O Espiritismo "puro" aceitava apenas os princípios fundamentais; o "kardecismo" aceitava a aliança com o Cristianismo. Nota da editora (FEESP): hoje Espiritismo e Doutrina Espírita são sinônimos — a distinção histórica não vigora.
Rustanismo
Grupo que adotava Os Quatro Evangelhos de Roustaing como vade-mécum; liderado por Bittencourt Sampaio e Sayão. Considerava Jesus "a maior essência espiritual depois de Deus". Dois docetismos: kardecistas negavam, rustanistas aceitavam a hipótese da carne aparente de Jesus.
A Plataforma dos Místicos (1°/8/1895)
Editorial do Reformador que foi recebido como sinal de guerra pelos científicos. Pretendia "nova fase analítica de que deverá subir à sintética, que unificará o Espiritismo do Brasil com o de todo o mundo." Canuto Abreu analisa criticamente: implicava reforma da síntese de Kardec, regulamentação da propaganda, direção única. Os científicos viram nisso o rustanismo a dominar a Federação.
As Instruções de Allan Kardec (1889)
Comunicação integral do Espírito de Kardec através de Frederico Júnior na Sociedade Espírita Fraternidade (5 de fevereiro de 1889). O Espírito Menezes anunciara sua vinda. O Espírito Kardec constata a dispersão: "Onde está a união?... por onde ficou a boa vontade?... que fizestes da caridade?" Aponta que o orgulho levou muitos a se arvorar em mestres na ignorância. Exorta à união sob a bandeira de Ismael — "Deus, Cristo e Caridade" — na Fraternidade como centro. Pede Escola de Médiuns. Conclui: "Sem caridade não há salvação. Sem fraternidade não pode haver união."
A comunicação foi decisiva para que Bezerra aceitasse a presidência da FEB em 1895.
Argumento central
A tese do livro é que o Espiritismo no Brasil ganhou forma e permanência graças a dois elementos inseparáveis: a figura de Bezerra de Menezes como pacificador e chefe moral, e a Assistência aos Necessitados como ancoragem prática da caridade concreta. Organizações construídas sobre propaganda doutrinária sem caridade se desintegraram. As que sobreviveram foram as que tinham a Assistência no centro.
Canuto Abreu é o único registro detalhado do período formativo do movimento espírita no Brasil (1853–1895). Escreve como historiador comprometido: cita fontes primárias (Reformador, Revue Spirite, O Paiz, O Eco de Além-Túmulo), reconhece as divergências, transcreve documentos, mas não esconde sua posição: a caridade vence sempre.
Conceitos relacionados
- Bezerra de Menezes — protagonista central do livro
- História do Espiritismo — crônica dos cinco primeiros períodos do Espiritismo no Brasil (1853–1895)
- Caridade — princípio-âncora que sustentou a FEB e o movimento; a lição dos três neófitos de 1894
- Codificação Espírita — as obras de Kardec no contexto das disputas entre "científicos" e "místicos"
- Ismael — guia espiritual do Espiritismo no Brasil, estandarte "Deus, Cristo e Caridade"
- Mediunidade — papel dos médiuns (Frederico Júnior, Bittencourt Sampaio) na história institucional
- Passes — originados pelos homeopatas Bento Mure e João Vicente Martins (antes de Kardec)