Lei de Liberdade
lei de liberdade, liberdade natural, liberdade de consciência
Lei de Liberdade
Definição
A lei de liberdade é a nona das dez Leis Morais enumeradas em O Livro dos Espíritos (Q. 825-872). Trata da liberdade natural do ser humano em suas diversas dimensões — política, intelectual, de consciência e moral — culminando na análise do livre-arbítrio e da fatalidade. É complementar à lei de igualdade e juntas formam a base doutrinária espírita dos direitos humanos.
Na codificação
Segundo O Livro dos Espíritos (Q. 825-872):
Liberdade natural
Nenhum homem tem liberdade absoluta: "Não, porque todos precisais uns dos outros, tanto os pequenos como os grandes." (Q. 825) A liberdade absoluta só existiria para o eremita isolado — pois "desde que dois homens estejam juntos, há entre eles direitos a serem respeitados" (Q. 826). A obrigação de respeitar os direitos alheios não diminui a liberdade — é um direito que vem da Natureza (Q. 827).
Kardec observa a contradição frequente: pessoas que professam ideias liberais exercem despotismo no lar e sobre subordinados. A razão: compreendem como as coisas devem ser, mas não agem como deveriam, por orgulho e egoísmo (Q. 828). A consequência espiritual: "Quanto mais inteligência tem o homem para compreender um princípio, tanto menos desculpável será de não o aplicar a si mesmo."
Escravidão
"Haverá homens que estejam, naturalmente, destinados a ser propriedade de outros homens?" — "Toda sujeição absoluta de um homem a outro homem é contrária à Lei de Deus. A escravidão é um abuso da força e desaparecerá com o progresso, como desaparecerão pouco a pouco todos os abusos." (Q. 829)
Sobre escravizadores que creem agir de boa-fé: a culpa é sempre relativa às luzes disponíveis. "Desde, porém, que sua razão, mais desenvolvida e, sobretudo, esclarecida pelas luzes do Cristianismo, lhe mostrou que o escravo era um seu igual perante Deus, ele não tem mais nenhuma desculpa." (Q. 830)
A invocação da superioridade racial para justificar a servidão é explicitamente refutada: "Sim, para as elevar, e não para embrutecê-las ainda mais pela servidão. (...) Não é o sangue que deve ser mais ou menos puro, mas o Espírito." (Q. 831) Mesmo escravizadores humanitários incorrem em falta — ao privar o escravo "do direito de ser dono de si mesmo" (Q. 832).
Liberdade de pensar
"É pelo pensamento que o homem goza de liberdade sem limites, pois o pensamento não admite barreiras. Pode-se deter o seu ímpeto, mas não aniquilá-lo." (Q. 833) O homem é responsável pelo seu pensamento perante Deus, mas somente Deus pode julgá-lo (Q. 834).
Liberdade de consciência
A liberdade de consciência é consequência direta da liberdade de pensar (Q. 835). "Somente a Deus pertence o direito de julgar a consciência." (Q. 836) Coagir homens a agir de modo diverso do que pensam é "torná-los hipócritas. A liberdade de consciência é uma das características da verdadeira civilização e do progresso." (Q. 837)
Sobre tolerância religiosa: "Toda crença é respeitável, desde que sincera e quando conduz à prática do bem. Condenáveis são as crenças que conduzem ao mal." (Q. 838) Ofender a crença de alguém é "faltar com a caridade e atentar contra a liberdade de pensar." (Q. 839)
Livre-arbítrio
"O homem tem o livre-arbítrio em todos os seus atos. Porém, não tem o poder de contrariar as Leis da Natureza." (Q. 843-a) O livre-arbítrio coexiste com as circunstâncias da vida, que podem restringir as possibilidades materiais, mas não as escolhas morais. A fatalidade, no sentido espírita, existe apenas nas provas escolhidas antes de encarnar (Q. 851) — não nas decisões morais que o Espírito enfrenta dentro dessas provas.
Fatalidade
"Fatal, no verdadeiro sentido do termo, só o instante da morte. Chegado esse momento, de uma forma ou de outra, não podeis livrar-vos dele." (Q. 853) Os acidentes e contratempos da vida que parecem inevitáveis são muitas vezes consequências das próprias escolhas do Espírito. A sensação de perseguição pelo destino resulta frequentemente de "lançardes à conta do destino o que muitas vezes é apenas consequência de vossas próprias faltas" (Q. 852).
Conhecimento do futuro
O conhecimento antecipado do futuro não é dado ao homem precisamente para que o livre-arbítrio se exerça plenamente (Q. 868-872). Se o homem soubesse o que vai acontecer, a liberdade de escolha se tornaria ilusória. Ver o futuro paralisaria a ação ou induziria à negligência.
Relação com o livre-arbítrio
A lei de liberdade e o conceito de Livre-arbítrio se distinguem no tratamento da codificação: a lei de liberdade (Cap. X) trata da liberdade nas suas dimensões política, social e religiosa, enquanto as questões Q. 843-867 tratam do livre-arbítrio propriamente dito — a faculdade moral de escolher entre o bem e o mal. A lei de liberdade é o contexto; o livre-arbítrio é a capacidade que a preenche.
Conceitos relacionados
- Leis Morais — A lei de liberdade é a 10ª lei moral do Livro Terceiro
- Livre-arbítrio — A expressão mais profunda da lei de liberdade no plano moral
- Lei de Igualdade — A lei anterior, sobre igualdade de direitos, que a lei de liberdade complementa
- Lei de Causa e Efeito — A lei que responde pelas consequências do uso da liberdade
- Escolha das Provas — O livre-arbítrio exercido no plano espiritual antes de encarnar