Trovas do Outro Mundo é uma antologia poética de 62 grupos de trovas, cada um assinado por um espírito diferente, psicografada por Chico Xavier. O prefácio é de Emmanuel, datado de 1º de janeiro de 1968, em Uberaba: "este volume é também a revelação de que há jogos florais na Vida Maior. Os trovadores que se despediram ontem da experiência terrestre prosseguem hoje, no Além, mais vivos e mais inspirados que nunca."
Estrutura
62 seções, cada uma com 4 a 8 trovas (quadras de quatro linhas em redondilha maior). Cada grupo tem título temático e é assinado por um espírito. Entre os poetas: Toninho Bittencourt, Sabino Batista, José Nava, Lauro Pinheiro, Lívio Barreto, Ulisses Bezerra, Ricardo Júnior, Artur Candal, Anísio Abreu, Adelmar Tavares, Isolino Leal, Delfina Benigna da Cunha, Antônio de Castro, Juca Muniz, Deraldo Neville, Oscar Batista, Raul Pederneiras, Antônio Sales, Colombina, Milton da Cruz, Chiquito de Morais, Jovino Guedes, Marcelo Gama, Silveira Carvalho, Joaquim Dias Neto, Ormando Candelária, Irene Souza Pinto, Roberto Correia, Regueira Costa, Leonel Coelho, Aderbal Piragibe, Gatão de Castro, Domingos Borges Barros, Sabino Silva, Sílvio Fontoura, Alberto Souza, Isolino Souza, Mauro Luna, Milton da Cruz, Lulu Parola, Benedito Candelária Irmão, Souza Lobo, Augusto de Oliveira, Cornélio Pires, Álvaro Martins, Antônio de Castro, Lindolfo Gomes, Soares Bulcão, Noel Rosa, Sebastião Rios, Adelmar Tavares, Pedro Silva, Moisés Eulálio, Teotônio Freire e outros.
Temas recorrentes
A variedade dos autores produz uma notável convergência temática:
- Dor como instrução: "Dor — a lanterna bendita / Nas sombras da caminhada" (Toninho Bittencourt); "Quanto serves, tanto vales, / Quanto sabes, tanto vês" (José Nava)
- Amor e sofrimento: "Amor só vive, a contento, / Depois de purificado / A fogo de sofrimento" (Sabino Batista); "Amor que nunca se olvida / Guarda sempre a mesma sorte: / Ligação de vida em vida, / Saudade de morte em morte" (Lívio Barreto)
- A morte como passagem: "O regozijo da morte / Que ninguém sabe dizer / Tem a beleza da noite / No instante do amanhecer" (Adelmar Tavares); "Olhei-me, depois da morte... / Vi meus conflitos sem fim!... / Oh! Senhor, dá-me outro corpo, / Quero esconder-me de mim..." (Anísio Abreu)
- Reencarnação: Seção "Reencarnação e Vida" (Aderbal Piragibe) e "Trovas da Reencarnação" (Mauro Luna)
- Desobsessão: Seção específica (Lulu Parola)
- Máximas morais: "Perdão é a melhor vingança / Nos estatutos de Deus" (Antônio de Castro); "A Terra seria o Céu, / Se o homem por onde vá, / Seguisse vinte por cento / Dos bons conselhos que dá" (José Nava)
A trova como forma espiritual
Emmanuel apresenta o livro como prova de que a criatividade artística continua no plano espiritual: "Há jogos florais na Vida Maior." A trova — forma de quatro versos com estrutura rimada fixa — é um formato tradicional da poesia popular brasileira que se presta bem à síntese doutrinária: em quatro linhas, uma verdade espiritual pode ser condensada com precisão e leveza.
O formato torna o livro próximo de Coisas Deste Mundo (Coisas Deste Mundo) de Cornélio Pires, mas sem a estrutura causa-efeito desta; aqui, cada trovador tem liberdade temática.
Autores de destaque
Noel Rosa (seção "Canções") é uma presença notável — o compositor carioca reaparece no Além com versos sobre Jesus e espiritualidade. Raul Pederneiras, caricaturista e humorista carioca da Belle Époque, assina a seção "Trovas de Sempre". A diversidade de perfis — nordestinos, caipiras, cariocas, intelectuais e populares — reforça a tese de Emmanuel: a poesia não cessa com a morte.
Conceitos relacionados
- Imortalidade da Alma — o livro inteiro é demonstração de continuidade criativa após a morte
- Reencarnação — múltiplas trovas sobre o tema
- Caridade — máximas sobre serviço, doação e amor ao próximo permeiam o volume
- Fé — perseverança e confiança em Deus como temas dominantes