Trovadores do Além
Antologia poética psicografada em coautoria por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, com a colaboração de espíritos poetas diversos. O livro reúne 312 quadras — o formato da trova popular brasileira de quatro versos — ditadas por dezenas de espíritos, cada um identificado ao final de seu poema.
Estrutura
O livro é uma coleção contínua numerada de quadras, sem divisão em capítulos. As composições estão distribuídas por posição (de 1 a 312), cada uma assinada pelo espírito comunicante. Entre os autores identificados estão:
- Emílio de Menezes (poeta e cronista, aparece múltiplas vezes)
- Juvenal Galeno (poeta cearense)
- Cornélio Pires (humorista paulista)
- Delfina Benigna da Cunha (poetisa gaúcha)
- Belmiro Braga, Lauro Pinheiro, Antônio Sales, Bernardo de Passos, entre outros
Temas das quadras
As 312 quadras giram em torno de um conjunto limitado de temas universais, abordados com concisão e frequentemente com humor ou paradoxo:
A saudade e o amor: Tema mais recorrente. "Saudade – angústia que embala, / Tem um ponto impertinente: / Quem sente, às vezes não fala. / Quem fala, às vezes não sente." (Roberto Correia)
A perspectiva do além-morte: Os espíritos oferecem testemunho da vida após a morte, frequentemente apontando o que passou a ver com mais clareza: "Do Além se vê, face a face, / O que nunca se entendeu, / Na morte de quem renasce, / Na vida de quem morreu." (Helvino de Morais)
A Reencarnação: Aparece em diversas quadras, tratada com naturalidade filosófica: "A evolução é assim: / O berço... O lar... A afeição... / O sonho... O labor... O fim... / Depois – a reencarnação." (Godofredo Viana); "O espírito reencarnado / Lembra em tronco viridente / De raiz presa ao passado, / Plantando o futuro à frente." (Bernardo de Passos)
A Caridade e o trabalho: "Para as tristezas da vida, / Trabalho é o grande remédio. / Quem com tédio mata o tempo, / O tempo mata de tédio." (Cristóvão Barreto). E: "O ensejo da caridade, / Para quem luta e melhora, / Não é breve, nem mais tarde, / O tempo chama-se agora." (Regueira Costa)
A ilusão das aparências terrestres: "Que o mundo não te embarace / Na aparência fementida. / A vida que está na face / Não mostra a face da vida." (Sabina Batista)
A riqueza material vs. espiritual: "Do que vejo após a morte, / Que mais me causa aflição, / É ouro na caixa forte / E pequeninos sem pão." (Juvenal Galeno). E: "Agora não mais me iludo / De que, na Terra ensombrada, / Quem não tem nada tem tudo, / Quem tem tudo não tem nada." (Antônio Sales)
Jesus e o Natal: "Natal! O Mestre Divino / Não nos pede adoração, / Roga um canto pequenino / Num canto do coração." (Belmiro Braga)
Humor e ironia espiritual: "Esclarecer nunca pude / Esta nota incontroversa: / Muito silêncio – virtude, / Muita virtude – conversa." (Emílio de Menezes); "Casamento – obra de Deus, / Obrigação para dois: / Encanto chega primeiro, / Serviço chega depois." (Delfina Benigna da Cunha)
A trova como veículo espírita
O formato da quadra (trova popular) é particularmente adequado para a psicografia coletiva: breve, autônoma, assinada. Cada trovas funciona como bilhete espiritual independente. A variedade de estilos e de temas entre as quadras — do tom humorístico de Emílio de Menezes ao místico de Belmiro Braga — evidencia a diversidade de comunicantes.
Emílio de Menezes, em particular, aparece várias vezes com quadras de humor ácido e observação social precisa, mantendo o estilo que o caracterizou em vida como um dos mais agudos satíricos da Belle Époque brasileira.
Referências cruzadas
- Chico Xavier — co-médium
- Waldo Vieira — co-médium
- Psicografia — mecanismo mediúnico de toda a obra
- Reencarnação — tema recorrente nas quadras
- Caridade — tema central
- saudade — tema mais frequente (ver Desencarnação)