Livro 1965

O Espírito de Cornélio Pires

Cornélio Pires — 1965

O Espírito de Cornélio Pires é uma coletânea de poesias psicografadas conjuntamente por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, ditadas pelo espírito do humorista e folclorista paulista Cornélio Pires (1884–1958). O livro foi apresentado por Elias Barbosa e datado de Uberaba, 1 de agosto de 1965.

Cornélio Pires — o autor espiritual

Cornélio Pires nasceu em Tietê, São Paulo, em 13 de julho de 1884, e desencarnou em São Paulo em 17 de fevereiro de 1958. Filho do povo, jornalista, folclorista, conferencista, cinegrafista e radialista, tornou-se um dos maiores divulgadores do folclore brasileiro — especialmente do universo caipira paulista — com obras como Musa Caipira (1910), Conversas ao pé do fogo (1921) e Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho (1924–1925).

Converteu-se ao Espiritismo após uma série de experiências mediúnicas narradas em suas "Confissões" (publicadas em Coisas d'Outro Mundo, 1944), que incluem: aparição espiritual que o impediu de tomar injeções de arsênico prejudiciais ao fígado; fotografia com imagem espiritual; psicografia espontânea por médiuns desconhecidos; e orientação de Bezerra de Menezes em Uberlândia. Kardec o tocou ao ler O Livro dos Espíritos a esmo e encontrar a frase: "É preferível recusar noventa e nove verdades a aceitar uma só mistificação."

Ao desencarnar, já espírita convicto, preparava uma "Coletânea Espírita" e publicara obras de fundo espírita como Onde estás, ó Morte? (1947). Elias Barbosa, que apresenta o livro, ressalta que Cornélio "deveria, por esse simples achado... merecer maiores estudos por parte dos literatos brasileiros."

Estrutura e método mediúnico

O livro reúne 102 poesias — 21 sonetos e trovas — psicografadas em sessões públicas da Comunhão Espírita Cristã em Uberaba, na maioria sob testemunho pessoal de Elias Barbosa. As peças de números ímpares são de Chico Xavier e as de números pares, de Waldo Vieira — revelando o mesmo poeta comunicando-se pelos dois médiuns na mesma noite, minutos após o outro.

Os títulos são: Despedida de Vital, A Mensagem e a Resposta, A Morte de Nhá Mina, Na Mesma Moeda, A Enxada, Confortinho, Partida de Nhá Cota, No Rio das Lágrimas, Terras de Nhô Quinca, Paixão de Sá Biluva, E Foi-se Embora, Nhô Manduco, Notícia da Avareza, Bota Fora de Nhô Chico, Matava por Prazer, A Tagarela, Céu, Inferno e Purgatório, Nhá Bela, O Fazedor de Caixões, Noventa Cruzeiros, Esconjuro, Bota Fora de Nhô Chico.

Ensinamentos e temas

O apresentador Elias Barbosa identifica a tônica principal do livro: o combate à avareza, com personagens que competem com "um Harpagon de Molière ou um Pai Grandet de Balzac" — Nhô Chico, João Cazeca, Calatrava, Maria Gaza, Ormindo, Nhá Cota, Tutuca Sapecado.

Ao mesmo tempo, a preocupação central de Cornélio é demonstrar a realidade da reencarnação e o continuísmo da vida após a morte. A trova "Reencarnação!... Vejo agora / O suplício de João Nava... / Renasceu filho da nora" ilustra a lei de causa e efeito com humor.

O soneto "Despedida de Vital" (Chico Xavier) é considerado um dos mais tocantes: um velhinho leproso morre sozinho e é visitado por um jovem envolto em luz dourada que diz "Vital, eu sou Jesus! Venha comigo!" — e o velho sai "das chagas de mendigo / Para um carro de estrelas da alvorada."

"A Morte de Nhá Mina" (apontada como uma das melhores do livro) descreve uma velha que, ao morrer, ouve a orquestra dos músicos de sua juventude tocando para ela — e "sai... Parece uma princesa / Que vai casar no céu com serenata."

O humor corneliano mantém o estilo autêntico do poeta: trovas em linguagem caipira ("papar tatu ervado", "engastalhar o cuspe na garganta"), imagens populares, rimagem abba/abba e versificação de gosto folclórico. Elias Barbosa cita Amadeu Amaral: "O humorismo de Cornélio não é uma expressão literária nem um meio, nem um condimento. É a matéria constante e sem mistura dos seus trabalhos."

Autenticidade mediúnica

O livro é notável como demonstração de autenticidade estilística: a linguagem e o humor cornélianos são reconhecíveis e inconfundíveis. Cornélio mesmo já proclamava em vida que "o Espiritismo-cristão nos proporciona a fé raciocinada, nos arrebata ao jugo do Dogma e nos ensina a compreender a Deus como Ele é." A dupla mediúnica — Chico Xavier e Waldo Vieira — operava simultaneamente, cada um recebendo poemas do mesmo espírito em sessões públicas.

Conceitos relacionados

  • Reencarnação — A reencarnação é o tema doutrinário central, illustrado com humor caipira
  • Lei de Causa e Efeito — Os personagens avarentos e seus destinos pós-morte exemplificam a lei kármica
  • Imortalidade da Alma — "Despedida de Vital" e "A Morte de Nhá Mina" oferecem imagens poéticas da continuidade da vida